O Papa Francisco cedeu uma entrevista à Franca Giansoldati,
do jornal italiano Il Messagero, no final de junho. A entrevista foi traduzida
e publicada na íntegra no sítio da Unisinos (IHU). Na segunda parte, Francisco
falou sobre política. Há menos de uma semana para o início das campanhas
eleitorais no Brasil, acompanhar a palavra do Papa pode clarear um pouco mais
para a importância da política, que passa por um período de crise, mas que
deveria ser redescoberta. Também - e como não poderia deixar de ser -, falou da Igreja, do Evangelho e dos pobres. Seguem alguns trechos da entrevista:
O encontro é em Santa Marta, à
tarde. Uma rápida verificação, e um guarda suíço me faz sentar em uma pequena
sala de estar.

Francisco entra sorrindo:
"Finalmente! Eu a leio e agora a conheço". Eu coro. "Eu, ao
contrário, o conheço e agora o escuto". Ele ri. Ri com gosto, o papa, como
fará outras vezes no decorrer de mais de uma hora de conversa livre. [...]
Existe uma hierarquia de valores a ser respeitada na gestão da coisa
pública?
Certamente. Proteger sempre o bem
comum. A vocação para qualquer político é essa. Um conceito amplo que inclui,
por exemplo, a proteção da vida humana, a sua dignidade. Paulo VI costumava
dizer que a missão da política continua sendo uma das formas mais altas de
caridade. Hoje, o problema da política – eu não falo só da Itália, mas de todos
os países, o problema é mundial – é que ela se desvalorizou, arruinada pela
corrupção, pelo fenômeno dos subornos. Lembro-me de um documento que os bispos
franceses publicaram há 15 anos. Era uma carta pastoral que se intitulava
"Reabilitar a política" e abordava justamente esse assunto. Se não
houver serviço na base, não se pode entender nem mesmo a identidade da
política.
O senhor disse que a corrupção tem cheiro de podridão. Também disse que
a corrupção social é o fruto do coração doente e não só de condições externas.
Não haveria corrupção sem corações corruptos. O corrupto não tem amigos, mas
idiotas úteis. Pode nos explicar isso melhor?
Eu falei dois dias seguidos desse
assunto, porque eu comentava a leitura da Vinha de Nabot. Gosto de falar sobre
as leituras do dia. No primeiro dia, abordei a fenomenologia da corrupção; no
segundo dia, de como acabam os corruptos. O corrupto não tem amigos, mas apenas
cúmplices.
De acordo com o senhor, fala-se muito da corrupção porque os meios de
comunicação insistem demais no assunto ou porque efetivamente se trata de um
mal endêmico e grave?
Não, infelizmente, é um fenômeno
mundial. Há chefes de Estado na prisão justamente por causa disso. Eu me
interroguei muito e cheguei à conclusão de que muitos males crescem
principalmente durante as mudanças epocais. Estamos vivendo não tanto uma época
de mudanças, mas uma mudança de época. E, portanto, se trata de uma mudança de
cultura. Justamente nesta fase, emergem coisas desse tipo. A mudança de época
alimenta a decadência moral, não só na política, mas também na vida financeira
ou social.
Os cristãos também não parecem brilhar por testemunho...
É o ambiente que facilita a
corrupção. Não digo que todos sejam corruptos, mas acho que é difícil
permanecer honesto na política. Falo sobre todos os lugares, não da Itália. Eu
também penso em outros casos. Às vezes há pessoas que gostariam de deixar as
coisas claras, mas depois se encontram em dificuldades, e é como se fossem fagocitadas
por um fenômeno endêmico, em vários níveis, transversal. Não porque seja a
natureza da política, mas porque, em uma mudança de época, os estímulos em
direção a um certo desvio moral se tornam mais fortes.
O senhor se assusta mais com a pobreza moral ou material de uma cidade?
Ambas me assustam. Por exemplo,
eu posso ajudar um faminto para que não tenha mais fome, mas, se ele perdeu o
trabalho e não encontra mais um emprego, isso tem a ver com a outra pobreza.
Ele não tem mais dignidade. Talvez ele pode ir à Cáritas e levar para casa uma
cesta básica, mas experimenta uma pobreza gravíssima que arruína o coração. Um
bispo auxiliar de Roma me contou que muitas pessoas vão ao restaurante popular
e, às escondidas, cheias de vergonha, levam comida para casa. A sua dignidade
progressivamente se empobreceu, vivem em um estado de prostração.
Pelas ruas consulares de Roma, veem-se menininhas de apenas 14 anos
muitas vezes forçadas à se prostituir na indiferença geral, enquanto, no metrô,
assiste-se à mendicância das crianças. A Igreja ainda é fermento? O senhor se
sente impotente como bispo diante dessa degradação moral?
Eu sinto dor. Sinto uma enorme
dor. A exploração das crianças me faz sofrer. Na Argentina também é a mesma
coisa. Para alguns trabalhos manuais, são usadas as crianças porque têm as mãos
menores. Mas as crianças também são exploradas sexualmente em hotéis. Uma vez,
avisaram-me que, em uma rua de Buenos Aires, havia menininhas prostitutas de 12
anos. Eu me informei, e efetivamente era assim. Isso me fez mal. Mas ainda mais
por ver que eram carros de alta cilindrada dirigidos por idosos que paravam.
Podiam ser seus os avós. Faziam com que a menina subisse e lhe pagavam 15
pesos, que depois serviam para comprar os restos da droga, o
"pacote". Para mim, essas pessoas que fazem isso às meninas são
pedófilos. Isso também acontece em Roma. A Cidade Eterna, que deveria ser um
farol no mundo, é espelho da degradação moral da sociedade. Acho que são problemas
que são resolvidos com uma boa política social.
O que a política pode fazer?
Responder de modo claro. Por
exemplo, com serviços sociais que levam as famílias a entender, acompanhando-as
para sair de situações pesadas. O fenômeno indica uma deficiência de serviço
social na sociedade.
Mas a Igreja está trabalhando muito...
E deve continuar a fazê-lo. Ela
precisa ajudar as famílias em dificuldades, um trabalho em saída que impõe o
esforço comum.
O Evangelho fala mais aos pobres ou aos ricos para convertê-los?
A pobreza está no centro do
Evangelho. Não se pode entender o Evangelho sem entender a pobreza real,
levando em conta que também existe uma pobreza belíssima do espírito: ser pobre
diante de Deus, porque Deus enche você. O Evangelho se volta indistintamente
aos pobres e aos ricos. Ele fala tanto de pobreza quanto de riqueza. De fato,
não condena os ricos; no máximo as riquezas, quando se tornam objetos
idolatrados. O deus dinheiro, o bezerro de ouro.
O senhor passa a imagem de ser um papa comunista, pauperista,
populista. A revista The Economist, que lhe dedicou uma capa, afirma que o
senhor fala como Lênin. O senhor se reconhece em tudo isso?
Eu digo apenas que os comunistas
nos roubaram a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no
centro do Evangelho. Os pobres estão no centro do Evangelho. Tomemos Mateus 25,
o protocolo pelo do qual seremos julgados: tive fome, tive sede, estive na
prisão, estava doente, nu. Ou olhemos para as Bem-aventuranças, outra bandeira.
Os comunistas dizem que tudo isso é comunista. Sim, como não, 20 séculos depois...
Então, quando eles falam, se poderia dizer a eles: mas vocês são cristãos!
(risos)
Aonde está indo a Igreja de Bergoglio?
Graças a Deus, eu não tenho
nenhuma Igreja, eu sigo a Cristo. Não fundei nada. Do ponto de vista do estilo,
não mudei de como eu era em Buenos Aires. Sim, talvez alguma coisinha, porque
se deve, mas mudar na minha idade teria sido ridículo. Sobre o programa, ao
contrário, eu sigo aquilo que os cardeais pediram durante as congregações
gerais antes do conclave. Eu vou nessa direção. O Conselho dos oito cardeais,
um organismo externo, nasce daí. Havia sido pedido para que ajudasse a reformar
a Cúria. O que, aliás, não é fácil, porque se dá um passo, mas depois surge que
é preciso fazer isto ou aquilo, e, se antes havia um dicastério, depois se
tornam quatro. As minhas decisões são o resultado das reuniões pré-conclave.
Não fiz nada sozinho.
Uma abordagem democrática...
Foram decisões dos cardeais. Eu
não sei se é uma abordagem democrática, eu diria mais sinodal, mesmo que a
palavra não seja apropriada para os cardeais.
Entrevista completa aqui.
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